O mercado automotivo está sob impacto de novas propostas de valor para os consumidores. A popularidade dos veículos híbridos vem crescendo, à medida que o interesse pelos elétricos diminui. Incrementos tecnológicos, voltados à maior autonomia dos carros e conectividade para motoristas e passageiros, seguem entre os atrativos adicionais preferidos dos compradores. Ainda assim, preço, qualidade e desempenho do produto e fidelidade continuam entre os requisitos importantes de escolha. As informações são do estudo Global Automotive Consumer, da Deloitte, organização com o portfólio profissional mais diversificado do mundo.
O levantamento acerca do comportamento dos consumidores é feito anualmente pela Deloitte, há 15 anos. Nesta edição, foram consideradas as respostas de 30 mil pessoas, de outubro a dezembro de 2024, em 30 países. A apuração considerou a eletrificação dos carros, a decisão atual e as intenções de compra futuras de veículos, a influência da tecnologia e das soluções compartilhadas de mobilidade.
O estudo constatou que a disposição dos consumidores por adquirir veículos elétricos abrandou em todo mundo, apesar da necessidade de avanço em direção ao transporte com emissão zero. Por outro lado, a popularidade dos carros híbridos têm cativado o público mais ávido por reduzir o consumo de combustível, conduzir automóveis mais silenciosos e contribuir com a melhora do meio ambiente em geral, entre outros fatores.
“Os carros elétricos dispõem de 500 quilômetros de capacidade de rodagem. Ainda há pontos limitados para recarga, que podem levar cerca de 7 horas até o nivel completo de energia. Parece que essa opção ainda vai demorar a fazer total sentido. Já os veículos híbridos despontam como alternativa mais aderente às demandas dos consumidores, pelas entregas que vão além do foco nas questões climáticas”, pondera Paulo de Tarso, sócio líder da Indústria de Consumo da Deloitte no Brasil.
Nos EUA, 62% dos respondentes do estudo manifestaram como intenção na próxima compra um veículo à combustão, 20% híbrido, 6% híbrido com possibilidade de plug in (recarga em pontos com eletricidade), 5% elétrico, 5% outros e 2% não souberam responder. “Só que os incentivos fiscais tendem a serem cortados para carros elétricos no País”, cita Paulo de Tarso.
No Japão e na China, a vontade de adquirir na próxima compra um carro movido exclusivamente por gasolina, etanol ou diesel foi citada por cerca de 40% dos respondentes do estudo. Já a soma de interesse por veículo híbrido ou elétrico é maior: respetivamente 60% na terra do Sol Nascente e 46% na do Dragão Vermelho. “Na China e no Japão há forte incentivo à inovação no setor automotivo”, lembra Paulo de Tarso.
Nos três países há queda da intenção de compra por veículo à combustão, sendo no Japão de 7%, nos EUA 5% e na China 5%, quando os dados atuais são comparados com a da edição anterior do estudo. Entre os americanos, aliás, há aumento de 5 pontos percentuais no interesse por carro híbrido, ano após ano, nos últimos levantamentos.
Embora não tenha sido considerado no estudo, o Brasil vive nos últimos dois anos lançamentos em série de veículos elétricos e híbridos, especialmente vinculados às montadoras BYD e GWM (chinesas), e a Stellantis (dona das marcas Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e RAM).
O interesse pelos veículos eletrificados pode ser observado através dos dados das montadores vinculadas à Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE), que registraram 177.358 unidades vendidas no ano passado, sendo um terço só de híbridos com plug in. Porém, essa quantidade não chega a 7% da frota total vendida em 2024, uma vez que 2,63 milhões de carros novos foram licenciados no Brasil no período, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veiculos Automotores (Anfavea).
“O veículo híbrido, mesmo mais pesado por ter duas motorizações, dá a opção de mobilidade com menor emissão de carbono em deslocamentos curtos nas cidades, e à combustão para distâncias mais longas nas estradas. Tem sido a escolha da maioria dos brasileiros que busca o ‘melhor do dois mundos’: a sustentabilidade do planeta e a comodidade e a praticidade. Mas fato é que o interesse por esses carros segue também outras tendências de mercado. Um pacote de benefícios que vai além do aquecimento global”, observa Paulo de Tarso.
Fator tecnologia
A maioria dos consumidores consultados no estudo são favoráveis à adição de Inteligência Artificial nos sistemas dos veículos. Os carros apoiados por sensores, câmeras, radares IA para perceber o ambiente e tomar decisões têm a intenção de tornar a mobilidade mais segura e envolvente. Atraem mais de três quartos dos entrevistados da Índia e da China. Esses dois países também lideram os indicadores, na mesma proporção, quanto à importância dos automóveis terem qualidade de conectividade com smartphone.
Já os veículos absolutamente autônomos, que conseguem se deslocar e executar tarefas de direção sem a necessidade de um condutor humano, dividem opiniões dos consumidores, segundo a pesquisa. Geram resistência naqueles que não confiam plenamente em máquinas/tecnologia.
O estudo da Deloitte trouxe também que consumidores da Índia e do Reino Unido são os mais preocupados com a ideia de guiar em uma rodovia junto a uma frota de robotáxis (respectivamente 63% e 52%) e outros veículos autônomos comerciais (respectivamente 74% e 67%).
“A pesquisa também revelou que os consumidores em todo mundo estão bastante dispostos a pagar mais por veículos com itens tecnológicos adicionais, mas que estejam relacionados especialmente à segurança, integração de dados e plataformas de comunicação. E isso tem sido ponto de apoio nas decisões de montadoras desde o projeto até a concepção dos veículos”, frisa Paulo de Tarso.
Fatores tradicionais
Apesar dos critérios sustentabilidade do planeta e aparato tecnológico ganharem força na decisão de compra dos carros por consumidores, o estudo identificou que preço, qualidade do produto e desempenho ainda são os principais fatores motivadores da escolha, citados em média como os mais relevantes por metade do público com interesse de compra de veículos em todo o mundo.
Aspectos de lealdade às marcas de automóveis diferem de país para país. De acordo com os respondentes do estudo, na China existe maior abertura para experimentações, nos EUA o público está dividido e no Japão há maior fidelidade.
“Em cada país há fatores culturais que implicam na dinâmica de compra. De todo modo, certos aspectos parecem não mudar quando se pensa em carro, em razão também do propósito do produto e da estratégia massificada de comunicação quanto aos principais benefícios disponíveis”, explica Paulo de Tarso.
Fatores geracionais
Segundo o estudo, 70% dos consumidores de carros da Geração Y (entre 18 e 34 anos), entrevistados na Índia, estão dispostos a desistir da propriedade dos veículos em favor de soluções integradas de mobilidade em massa. Em contrapartida, apenas um em cada três consumidores de automóveis mais jovens na Alemanha topariam tal contexto.
“Essa dinâmica se acentuou com os serviços de mobilidade com suporte de aplicativos. Mas terão ainda maior apelo quando as cidades avançarem de maneira significativa em infraestrutura metroviária e em bolsões de estacionamento”, afirma Paulo de Tarso.
Metodologia
O estudo consultou, de forma online, consumidores de veículos dos seguintes países: Argentina, Canadá, México, EUA, Áustria, Bélgica, República Tcheca, França, Alemanha, Hungria, Itália, Holanda, Polônia, índia, Japão, China, Arábia Saudita, Espanha, Suécia, Turquia, Emirados Árabes, Reino Unido, Austrália, Indonésia, Malásia, Filipinas, Coreia e Singapura, Tailândia e Vietnã. Metade do público se declarou mulher e a outra metade homem, todos acima dos 18 anos de idade.
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