A ideia de que a Geração Z abandonou o transporte público não encontra respaldo nos dados. O que as pesquisas indicam é que os jovens continuam enxergando valor na mobilidade coletiva, mas passaram a comparar a experiência de deslocamento com os padrões de conveniência que já encontram em outros serviços. Um levantamento global da Ipsos, com a participação de 31 países incluindo o Brasil, mostra que a Gen Z é a faixa etária mais propensa a gostar do transporte público. Enquanto 22% dos jovens apontam o coletivo como seu modo de transporte preferido, o índice cai para 15% entre Millennials, 16% na Geração X e 14% entre Baby Boomers.
Ao mesmo tempo, a pesquisa revela um desafio para operadores e gestores públicos. Embora 62% das pessoas considerem o transporte público acessível e seguro, apenas 1/4 dos entrevistados o utiliza como principal meio de deslocamento. Na avaliação de João Valle, Diretor da Empresa 1, centro de inovação em mobilidade urbana, a explicação pode estar menos ligada ao modal em si e mais à experiência oferecida.
Crescendo em um ambiente onde praticamente tudo é resolvido pelo smartphone, de operações bancárias a compras, entretenimento e alimentação, a Geração Z enxerga a praticidade, autonomia e instantaneidade como requisitos básicos de qualquer serviço. Quando o transporte coletivo exige filas, recargas presenciais, múltiplos cartões ou informações difíceis de acessar, ele passa a competir em desvantagem com alternativas percebidas como mais simples, como chamar um carro por aplicativo.“A nova geração não compara a experiência do transporte público apenas entre modais. Ela compara com tudo o que usa no dia a dia. Se consegue pedir comida, fazer um pagamento ou contratar um serviço em poucos segundos pelo celular, espera o mesmo nível de simplicidade para embarcar em um ônibus”, afirma João Valle.
Essa análise está alinhada ao perfil da juventude brasileira, apresentado por um relatório da Deloitte. Segundo a pesquisa, 70% dos brasileiros da Geração Z já utilizam ferramentas de inteligência artificial no trabalho, e 45% pretendem fazer treinamento em IA nos próximos 12 meses. “Os dados confirmam que essa é uma geração altamente conectada, acostumada a aprender, resolver problemas e tomar decisões por meio de plataformas digitais”, comenta João.
Ele acredita que a digitalização completa do serviço de transporte coletivo é uma das grandes expectativas dos jovens. Isso inclui funcionalidades como pagamento de tarifa por aproximação, recarga instantânea, consulta de saldo em tempo real, informações atualizadas sobre horários e integração das linhas de transporte, tudo via smartphone.
Há outras características da Gen Z que dialogam com essa demanda por um transporte coletivo mais conveniente. De acordo com a Ipsos, em escala global, os mais jovens lideram a disposição para optar pelo transporte público por razões ambientais: 48% afirmam que fariam essa escolha, acima dos 42% registrados entre os baby boomers. No recorte brasileiro, a pesquisa da Deloitte indica que 81% da Gen Z sente preocupação ou ansiedade em relação aos impactos ambientais e 72% estão dispostos a pagar mais por produtos e serviços sustentáveis; ao mesmo tempo, hoje, a principal preocupação dos jovens é o custo de vida, citado por 34% dos entrevistados da Gen Z.
“A preocupação com o custo de vida e com a sustentabilidade coloca o transporte coletivo em uma posição estratégica. Quando bem estruturado, ele oferece uma alternativa mais econômica e, portanto, mais acessível do que o transporte individual, o que, por sua vez, contribui para a redução das emissões de carbono, já que menos veículos vão circular para transportar o mesmo número de pessoas”, diz o diretor da Empresa 1.