O debate sobre a regulamentação do trabalho por aplicativo avança no Congresso e nos governos locais, mas encontra um obstáculo decisivo: a própria base da categoria. Levantamento do GigU em parceria com a Jangada Consultoria de Comunicação mostra que a maioria dos motoristas que atuam com carro não apoia a formalização e associa a proposta a uma possível queda de renda, fator que se sobrepõe, na percepção dos entrevistados, aos potenciais ganhos em proteção social e reconhecimento profissional.
Entre os respondentes, 52,2% afirmam não ser favoráveis à formalização, enquanto 42,2% se dizem a favor. Quando questionados sobre a importância do tema, o cenário permanece fragmentado: 36,4% consideram a formalização “nada importante”, ante 30,8% que a classificam como “muito importante”. A dispersão das respostas sugere uma categoria distante de consenso, marcada por insegurança econômica e desconfiança institucional.
O ponto mais sensível é o impacto financeiro. Para 43,2%, um modelo formal reduziria “bastante” a renda mensal; outros 19,4% acreditam que haveria uma redução menor. Apenas 11,4% veem possibilidade de aumento nos ganhos. Não por acaso, 47,9% dizem não enxergar benefícios relevantes na formalização. Entre os que identificam vantagens, destacam-se proteção em caso de doença ou acidente (16,9%), reconhecimento profissional (14,9%), segurança financeira no longo prazo (10,2%) e acesso à aposentadoria (10,1%). O contraste revela uma tensão clássica do mercado de trabalho contemporâneo: a troca entre flexibilidade imediata e proteção futura.
A ambivalência também aparece na percepção de segurança. Embora 38,5% afirmem que se sentiriam mais seguros com um modelo claro de formalização, 20,2% dizem que isso não mudaria ou até pioraria a sensação de segurança, e 14,5% avaliam que nada mudaria. Quando questionados sobre eventual adesão, apenas 17,9% afirmam que entrariam imediatamente. Outros 26,5% dependeriam de entender melhor as regras, e 22,9% condicionam a decisão aos custos. Já 27,8% não teriam interesse em aderir.
A divisão se estende à responsabilidade pelo processo. Para 31,8%, não deveria haver formalização. Entre os demais, prevalece a ideia de responsabilidade compartilhada (28,7%), seguida por governo (13,7%), trabalhadores individualmente (13,3%) e plataformas (12,5%). O dado indica ausência de liderança clara no tema e reforça a percepção de que a categoria não se sente plenamente representada por nenhum ator isolado.
A imagem da profissão também está em disputa. Para 32,1%, a formalização pode prejudicar a consolidação da atividade; 29,7% acreditam que melhoraria muito, e 19,5% enxergam melhora parcial. Ainda assim, o trabalho por aplicativo permanece central na estratégia de renda: 38% pretendem seguir na atividade como complemento, e 20,7% como carreira principal.
Os resultados evidenciam que a formalização, tal como percebida hoje, é vista mais como risco do que como oportunidade. “O desafio regulatório ultrapassa desenhar um modelo jurídico viável, mas esbarra principalmente em construir confiança econômica. Sem essa garantia, de nada adianta promessas de proteção, ainda mais quando não são claras. Enquanto esse desafio não for resolvido, a resistência quanto a regulamentação tende a permanecer e o impasse a se aprofundar”, afirma Luiz Gustavo Neves, CEO e co-fundador da plataforma.