Com o avanço acelerado da inteligência artificial e de tecnologias capazes de processar e analisar grandes volumes de informações, os dados passaram a ocupar um papel cada vez mais estratégico na tomada de decisões. No transporte público, essa transformação amplia as possibilidades de compreender como as pessoas se deslocam pelas cidades, identificar padrões de utilização dos serviços e aprimorar o planejamento da mobilidade urbana.
Essa capacidade de análise ganha ainda mais importância diante dos desafios enfrentados pelo transporte coletivo brasileiro. Segundo o Anuário NTU 2025–2026, da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), a demanda por ônibus caiu 3,7% em 2025, na comparação com o ano anterior, e permanece 22,5% abaixo do patamar registrado em 2019. Nesse cenário, compreender os hábitos de deslocamento da população e identificar oportunidades de melhoria na operação são caminhos para tornar o serviço mais eficiente e atrativo.
Parte dessas informações já é gerada diariamente pelos sistemas de bilhetagem eletrônica. Desde a substituição dos antigos bilhetes de papel por cartões inteligentes, na década de 1990, a tecnologia evoluiu para plataformas conectadas que, além de registrar pagamentos e validações, permitem reunir dados sobre viagens, utilização das linhas e movimentações financeiras. Quando integrados a sistemas de localização e monitoramento da frota, esses registros ajudam a construir uma visão mais abrangente da operação do transporte coletivo.
Pioneira da bilhetagem digital no Brasil, a Empresa 1 acompanha essa transformação desde 1997. Para João Valle, diretor da companhia, a evolução representa uma mudança na maneira como as informações geradas pelo transporte público podem ser utilizadas. “Durante muito tempo, a bilhetagem foi vista principalmente como uma ferramenta de pagamento e controle de passagens. Hoje, ela também é uma fonte importante de dados sobre o funcionamento do transporte público. Quando essas informações são organizadas e analisadas em conjunto, os gestores conseguem compreender melhor a operação e tomar decisões mais fundamentadas para atender às necessidades da população”, afirma.
Os registros gerados pela bilhetagem e por outras tecnologias de monitoramento podem contribuir para diferentes áreas da gestão do transporte coletivo. Confira sete tipos de dados que podem ajudar a transformar a mobilidade nas cidades:
1. Horários e pontos de maior demanda
Os registros de validação das passagens permitem identificar os períodos do dia e os locais de acesso em que há maior utilização do transporte público. Essas informações ajudam a compreender as variações de demanda ao longo da semana e podem apoiar decisões sobre distribuição de veículos, frequência das viagens e adequação da oferta nos horários de maior movimento.
2. Utilização das linhas e equilíbrio entre oferta e demanda
Ao cruzar dados de bilhetagem com informações sobre viagens programadas e realizadas, os gestores podem avaliar se a oferta de transporte acompanha os padrões de utilização das linhas. Essa análise ajuda a identificar horários com maior concentração de passageiros e oportunidades de ajustes na frequência, nos itinerários e na distribuição da frota.
3. Tempo de viagem e regularidade dos ônibus
Informações de localização por GPS permitem acompanhar trajetos, velocidades e variações no tempo de deslocamento. Quando relacionadas aos horários programados, ajudam a identificar trechos com atrasos recorrentes, avaliar a regularidade das viagens e estudar alternativas para melhorar a previsibilidade do serviço.
4. Integração entre linhas e diferentes modais
Nos sistemas que possuem integração e registros compatíveis, os dados de bilhetagem ajudam a compreender padrões de transferência entre linhas e diferentes modalidades de transporte. Essas informações podem orientar avaliações sobre conexões, regras tarifárias e oportunidades para tornar os deslocamentos mais simples e eficientes.
5. Utilização de gratuidades, subsídios e fiscalização de benefícios tarifários
Os registros de bilhetagem permitem acompanhar o uso de gratuidades e descontos tarifários, fornecendo informações para auditorias, fiscalização e cálculo de subsídios. Ao associar cada validação a dados como cartão, horário, linha e veículo, os sistemas possibilitam verificar a utilização dos benefícios, identificar padrões suspeitos e conferir se os recursos estão chegando a quem tem direito. Essas informações também ajudam a dimensionar o impacto financeiro das gratuidades e fundamentar a prestação de contas dos repasses públicos. Tecnologias como a biometria facial podem complementar esse monitoramento, enquanto a avaliação de eventuais irregularidades e a decisão sobre medidas cabíveis permanecem sob responsabilidade do órgão gestor.
6. Desempenho e necessidades de manutenção da frota
Os dados gerados por sistemas de telemetria permitem acompanhar parâmetros como velocidade, consumo de combustível, condições operacionais dos veículos e comportamento de condução. A análise dessas informações pode ajudar a identificar falhas, planejar ações de manutenção preventiva e buscar maior disponibilidade da frota.
7. Arrecadação e movimentação dos créditos de transporte
Além das informações sobre viagens, os sistemas de bilhetagem eletrônica geram registros sobre comercialização de créditos, recargas, validações e receitas tarifárias. A consolidação desses dados contribui para a conciliação financeira, a identificação de inconsistências e o acompanhamento dos recursos movimentados pelo sistema.
Dados e governança na mobilidade urbana
Apesar do volume crescente de informações disponíveis, transformar registros em decisões exige processos de organização, integração e análise. A governança de dados ganha relevância nesse contexto, ao estabelecer critérios para a qualidade, a segurança, o acesso e a utilização das informações, incluindo o cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). No transporte público, essas práticas também contribuem para a rastreabilidade das operações, a transparência na aplicação dos recursos e a confiabilidade das informações utilizadas na fiscalização e na prestação de contas.
“Ter acesso a um grande volume de informações não significa, necessariamente, ter uma gestão mais eficiente. O diferencial está em conseguir interpretar esses dados e utilizá-los para melhorar o serviço. Quando informações sobre demanda, operação e arrecadação são analisadas em conjunto, é possível identificar oportunidades de melhoria e construir um planejamento mais alinhado à realidade de cada cidade”, afirma João Valle.