A implementação da recuperação extrajudicial de veículos pode se tornar uma das principais alavancas para reduzir o custo do financiamento automotivo e ampliar o acesso ao crédito no Brasil. A avaliação foi compartilhada por executivos de grandes instituições financeiras reunidos em São Paulo, durante o “Panorama de Veículos”, que debateu o mercado de financiamento de automóveis e o futuro do crédito no país.
O encontro reuniu representantes de bancos, financeiras e entidades do setor em um momento no qual o mercado brasileiro combina volumes recordes de financiamento com um ambiente ainda pressionado pelo custo do crédito. Entre os temas de maior destaque esteve a recuperação extrajudicial de veículos, mecanismo estabelecido pelo Marco Legal das Garantias (Lei nº 14.711/2023) que permite a realização de procedimentos de recuperação dos bens dados em garantia sem que o Judiciário seja necessariamente a primeira etapa do processo.
“Discutir o mercado de veículos é também discutir inclusão, eficiência e desenvolvimento econômico. E esse diálogo só avança quando o setor público e o setor privado atuam de forma coordenada, com responsabilidade e visão de futuro”, disse, na abertura do encontro, Tadeu Silva, presidente da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), organizadora do evento.
Para as instituições financeiras presentes, uma das principais consequências da recuperação extrajudicial está na possibilidade de reduzir custos associados à retomada dos veículos dados como garantia. Na avaliação do setor, maior previsibilidade e eficiência nesse processo tendem a diminuir o risco das operações e podem abrir espaço para melhores condições de financiamento.
“O Marco Legal das Garantias é muito necessário. A gente precisa ter a recuperação extrajudicial funcionando o mais rápido possível. É concorrência, é alternativa de serviços. A gente trazer, de maneira administrativa, a operação via cartório, via Detran seria fundamental. Via os Detrans, já tivemos uma pequena experiência, que funcionou muito bem”, explica Alexandre Teixeira, do Banco Daycoval.
A expectativa é que os ganhos de eficiência não fiquem restritos às instituições financeiras. Executivos do setor defendem que a redução dos custos relacionados à recuperação de garantias pode chegar ao consumidor por meio de taxas menores e contribuir para a inclusão de pessoas que hoje não conseguem contratar um financiamento.
“O Marco Legal das Garantias traz agilidade e redução de custo. Ele tem que vir para trazer uma redução custo que é transferida como redução de taxa para a ponta, para conseguirmos colocar mais gente para dentro do mercado”, pondera Ricardo Bonzo, do C6 Bank.
O impacto sobre o chamado spread de crédito também está entre os principais pontos levantados pelo setor. Quanto maior o risco e o custo associados à recuperação de um bem financiado em caso de inadimplência, maior tende a ser a parcela desse risco incorporada às condições oferecidas ao conjunto dos consumidores.
“Desde quando essa possibilidade foi anunciada, o mercado ficou em polvorosa, pois todo mundo sabe que ao decompor spread, a dificuldade da retomada tem um peso enorme. Nesse sentido, o bom cliente teria um benefício palpável no final das contas”, complementa Pedro Dabbur, do Banco Toyota.
Brasil financia cerca de 30% dos veículos comercializados e mercado vê espaço para avançar
O debate ocorre em um momento de forte movimentação do mercado automotivo brasileiro. Em 2025, foram financiados 7,3 milhões de veículos novos e usados no país, incluindo automóveis leves, pesados e motocicletas. Segundo a B3, foi o melhor resultado anual desde 2011, com crescimento de 2% sobre 2024.
Do total, 4,6 milhões eram veículos usados e 2,6 milhões novos. Em seus resultados operacionais, a B3 aponta ainda que cerca de 30% dos veículos vendidos no Brasil em 2025 tiveram financiamento.
A dimensão financeira desse mercado também cresceu. Dados da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (ANEF) mostram que o saldo da carteira de financiamento de veículos encerrou 2025 em R$ 544,4 bilhões, avanço de 12% em relação aos R$ 486,2 bilhões registrados um ano antes.
O mercado potencial é ainda maior. Somente entre seminovos e usados, foram comercializados 18,5 milhões de veículos no Brasil em 2025, recorde histórico e crescimento de 17,3%, segundo a Fenauto. Entre automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus novos, foram outras 2,69 milhões de unidades, de acordo com a Fenabrave.
Os números ajudam a dimensionar o espaço existente para expansão do crédito automotivo no país. A comparação internacional, embora precise considerar diferenças metodológicas entre os mercados, reforça esse potencial. No Reino Unido, por exemplo, dados da Finance & Leasing Association (FLA) mostram que suas instituições associadas financiaram mais de 85% dos registros de carros novos adquiridos por consumidores privados em 2025. Nos EUA, os financiamentos podem chegar a 90% dos veículos vendidos.
A distância entre os indicadores mostra o peso que instrumentos de financiamento podem alcançar em mercados com alta penetração de crédito automotivo. Representantes das instituições financeiras avaliam que mecanismos capazes de diminuir risco, custo e tempo de recuperação das garantias podem ajudar o Brasil a ampliar gradualmente a parcela de consumidores atendidos pelo crédito.
Detrans defendem capacidade para operacionalizar novo modelo
Além das instituições financeiras, o “Panorama de Veículos” reuniu representantes institucionais ligados ao ecossistema automotivo. A participação dos departamentos estaduais de trânsito é considerada central para a operacionalização da recuperação extrajudicial prevista no Marco Legal das Garantias.
Para Givaldo Vieira, presidente da AND (Associação Nacional dos Detrans), a recuperação extrajudicial de veículos é um dos temas relevantes para a perspectiva de melhoria do ambiente de crédito no Brasil. “Essa experiência (da recuperação extrajudicial de veículos) foi implementada no Mato Grosso do Sul e em São Paulo. No meu estado (Espírito Santo) ela está totalmente organizada, testada, assim como em outros estados. Os Detrans podem avançar muito nessa operação, com perfeita cooperação nacional”, afirma.
A percepção convergente entre representantes de instituições financeiras e dos departamentos estaduais de trânsito coloca a implementação do mecanismo no centro das discussões sobre a próxima etapa de desenvolvimento do financiamento de veículos no Brasil.
Para o mercado, a equação é direta: quanto mais eficiente e previsível for o tratamento das garantias, menor tende a ser o risco incorporado às operações. E, em um país no qual menos de um terço dos veículos comercializados é financiado, a expectativa do setor é que a combinação entre segurança jurídica, redução de custos e maior concorrência possa se traduzir em mais crédito, melhores condições e acesso de novos consumidores ao mercado automotivo.