O aumento da expectativa de vida no Brasil traz um desafio invisível e urgente para a saúde pública: quanto mais idosa a população se torna, mais suscetível o organismo fica aos danos biológicos provocados pela exposição contínua aos poluentes emitidos pelo trânsito. Sem uma mudança profunda na frota circulante, o número de mortes prematuras anuais decorrentes da poluição do transporte rodoviário no país deve crescer 47% até 2050.
"À medida que a população envelhece, ela se torna biologicamente mais suscetível a mortes prematuras causadas pela poluição do ar", explica Jonathan Benoit, desenvolvedor de modelos do ICCT e coautor do estudo. "A combinação do crescimento populacional, do envelhecimento e do aumento no uso de veículos — especialmente em regiões com normas menos rigorosas — explica por que projetamos um aumento na mortalidade mesmo com reduções modestas em algumas emissões. O ganho de uma frota gradualmente mais limpa acaba sendo engolido pelo aumento do número de veículos rodando e pela maior vulnerabilidade da população".
A projeção faz parte do relatório global Health Benefits of Zero-Emission Transport Through 2050, divulgado pelo ICCT. O trabalho alerta que a contaminação do ar pelo transporte rodoviário já é responsável por uma morte a cada 45 segundos e um novo caso de asma infantil a cada 2 minutos no planeta.
O cruzamento biológico e a carga de doenças no Brasil
No Brasil, o estudo estima que o transporte rodoviário causou cerca de 8.000 mortes prematuras em 2024, colocando o país na 17ª posição no ranking mundial de óbitos por essa fonte. Além disso, o país ocupou o 10º lugar global em novos casos de asma pediátrica atribuíveis ao trânsito, acumulando 9.200 diagnósticos em crianças e adolescentes em um único ano.
A exposição crônica a poluentes veiculares, como o material particulado fino, o dióxido de nitrogênio e o ozônio, atua diretamente no surgimento e no agravamento de enfermidades crônicas e vasculares. Entre os principais desfechos clínicos associados às emissões veiculares estão o Acidente Vascular Cerebral (AVC), o infarto do miocárdio, a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), o câncer de pulmão, o diabetes tipo 2 e infecções respiratórias graves em adultos, além da asma em crianças.
Diagnóstico do cenário brasileiro: avanços e gargalos
O Brasil conta com programas históricos de controle de emissões, como as fases P-8 do PROCONVE para veículos pesados e L-8 para leves, que estão alinhadas às melhores práticas internacionais. Além disso, no segundo trimestre de 2026, as vendas de veículos leves elétricos alcançaram 15% do mercado nacional — sendo 8% correspondentes a modelos 100% elétricos e 7% a híbridos plug-in —, impulsionadas por incentivos estaduais como descontos no IPVA e pelo apoio federal ao financiamento de ônibus elétricos urbanos.
No entanto, pesquisadores do ICCT ponderam que esse ritmo ainda é insuficiente para conter o impacto epidemiológico do crescimento da frota. No setor de transporte de cargas, por exemplo, as vendas de caminhões de zero emissão representam menos de 0,5% do mercado.
"Apesar da recente aceleração nas vendas de veículos elétricos leves, o Brasil ainda não está alinhado ao cenário necessário para cortar mortes prematuras", afirma André Cieplinski, pesquisador sênior do ICCT. "As novas metas do programa MOVER oferecem incentivos pontuais, como a redução de 2% no IPI em relação aos veículos flex, mas não são suficientemente ambiciosas para impulsionar a migração em massa. Serão necessários incentivos adicionais e uma redução nos custos dos veículos de zero emissão para que o país alcance uma virada real na saúde pública".
A transição acelerada e os ganhos de vidas salvas
O relatório modelou a diferença entre manter as políticas atuais e adotar uma transição acelerada (cenário Ambicioso), que prevê 100% de vendas mundiais de veículos de zero emissão até 2045. Para o Brasil, essa trajetória exige atingir 61% de vendas de veículos leves elétricos até 2035 (e 100% até 2045) e 54% de veículos pesados de zero emissão até 2035 (e 100% até 2045).
Apenas esse cenário ambicioso é capaz de reverter a curva de mortalidade. Com ele, o Brasil registraria uma redução de 35% nas mortes prematuras anuais até 2050. No acumulado entre 2024 e 2050, a medida evitaria 65.200 mortes prematuras e 18.600 novos casos de asma infantil em território nacional.
"Para reverter a tendência de aumento nos óbitos, o ritmo de incorporação de novos veículos de emissão zero à frota precisa mais do que compensar o aumento da frota a combustão decorrente do crescimento das vendas", reforça Jonathan Benoit. "Projetamos que a frota total de veículos cresça cerca de 30% no Brasil até 2050. Se não acelerarmos a entrada de modelos limpos, o aumento de veículos em circulação continuará ampliando o impacto na saúde da população".
Desigualdade global e alertas no ar de São Paulo
Em escala global, o estudo aponta que, sem novas medidas, as mortes prematuras por poluição veicular saltarão 74% até 2050, atingindo 1,2 milhão de vítimas anuais. Essa carga afeta desproporcionalmente os países de renda média e baixa. Enquanto países de alta renda devem ver uma queda de 48% nas mortes veiculares sob as políticas vigentes, nações de renda média-alta como o Brasil enfrentarão um aumento médio superior a 50%.
"Somente em 2024, o transporte rodoviário contribuiu para quase 700 mil mortes prematuras e 250 mil novos casos de asma infantil no mundo", destaca Lingzhi Jin, coautora do estudo. "Enquanto países de alta renda avançam na transição de suas frotas, países de baixa e média renda caminham para concentrar uma parcela cada vez maior desses impactos, ampliando as desigualdades globais de saúde".
Para acelerar os benefícios no curto prazo, o ICCT aponta ações complementares urgentes, como programas de sucateamento de frota antiga, Zonas de Baixa Emissão (LEZs) em centros urbanos e fiscalização rigorosa das emissões em condições reais de uso. Testes da iniciativa TRUE realizados na Região Metropolitana de São Paulo revelaram que os veículos frequentemente ultrapassam os limites do PROCONVE no trânsito real, incluindo caminhões novos certificados na fase P8 (equivalentes ao Euro VI).
"O Brasil começa a dar sinais positivos em direção à eletrificação, e iniciativas como o TRUE demonstram o quanto essa tecnologia é necessária", resume Marcel Martin, diretor-geral do ICCT Brasil. "Quando observamos os poluentes locais e seus impactos diretos na saúde humana, os benefícios de acelerar essa transição tornam-se incontestáveis".
"O crescimento populacional, o envelhecimento e a expansão da frota exercem uma pressão sem precedentes sobre a saúde pública", conclui Josh Miller, diretor sênior do ICCT e coautor da pesquisa. "Uma eletrificação ambiciosa pode romper essa trajetória e evitar quase 9 milhões de mortes prematuras no mundo até 2050".
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