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Sono de qualidade pode salvar vidas nas estradas; especialista alerta para riscos invisíveis da fadiga ao volante
Conselheiro da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), médico Alberto Ogata explica como o relógio biológico, a privação de sono e distúrbios como a apneia aumentam o risco de acidentes e defende programas de gestão da fadiga nas empresas
Por Administrador
Publicado em 01/07/2026 12:09
O Trânsito nosso de todo dia
Reprodução - 4Truck

Dormir pouco ou mal pode ser tão perigoso quanto dirigir sob efeito de álcool. Embora a embriaguez seja amplamente reconhecida como um fator de risco no trânsito, a sonolência ainda é subestimada — mesmo sendo responsável por reduzir significativamente a atenção, o tempo de reação e a capacidade de tomada de decisões ao volante.  

Segundo o médico Alberto Ogata, conselheiro da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), a explicação está no funcionamento do relógio biológico, responsável por regular praticamente todas as funções do organismo ao longo das 24 horas, como sono, vigília, temperatura corporal, produção hormonal e níveis de atenção.  

"Dirigir é uma atividade que exige vigilância constante. Em determinados períodos do dia, especialmente durante a madrugada e no início da tarde, nosso organismo apresenta uma queda natural do estado de alerta. Se isso se soma à privação de sono, o risco de microssonos e lapsos de atenção aumenta de forma significativa", afirma. 

O especialista lembra que, a 100 km/h, um motorista que adormece por apenas quatro segundos percorre uma longa distância sem qualquer controle do veículo — tempo suficiente para provocar um acidente grave. 

Cronotipo influencia o desempenho 

Além da quantidade de horas dormidas, outro fator importante é o cronotipo, ou seja, a tendência natural de cada pessoa funcionar melhor em determinados horários do dia. 

Quando um motorista trabalha em horários incompatíveis com seu relógio biológico, ocorre um desalinhamento que prejudica funções cognitivas essenciais, como memória operacional, atenção sustentada, velocidade de processamento e percepção de risco. 

Esse cenário se torna ainda mais preocupante entre motoristas profissionais submetidos a jornadas prolongadas, escalas noturnas, alimentação irregular e pouco tempo para descanso. De acordo com Ogata, a combinação desses fatores favorece o chamado "jet lag social", condição associada ao aumento do risco de doenças metabólicas e cardiovasculares. 

Privação de sono pode ter efeito semelhante ao álcool 

Diversos estudos científicos demonstram que permanecer acordado por muitas horas compromete o desempenho de maneira semelhante ao consumo de bebidas alcoólicas. 

Pesquisas apontam que cerca de 17 horas contínuas de vigília podem produzir prejuízos comparáveis aos de uma alcoolemia de 0,05%, enquanto 24 horas sem dormir podem equivaler a aproximadamente 0,10%. 

"A grande diferença é que o álcool é facilmente reconhecido como um risco. Já a sonolência costuma ser negligenciada. Muitas pessoas acreditam que conseguem resistir ao sono, mas os microssonos acontecem sem que o motorista perceba", alerta. 

Distúrbios do sono ampliam o risco de acidentes 

A preocupação não se limita à falta de descanso. Distúrbios como apneia obstrutiva do sono, insônia, narcolepsia e síndrome das pernas inquietas também comprometem a qualidade do sono e aumentam a probabilidade de acidentes. 

No caso da apneia, o sono é interrompido diversas vezes durante a noite, reduzindo a oxigenação e impedindo um descanso reparador. Como consequência, mesmo após várias horas de sono, a pessoa pode acordar cansada, apresentar sonolência diurna e redução da capacidade de concentração. 

Além de aumentar o risco de acidentes, a apneia está associada ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral (AVC). 

Gestão da fadiga deve fazer parte da estratégia das empresa 

Para Alberto Ogata, o combate à sonolência no trânsito não depende apenas da conscientização individual. Empresas que possuem motoristas em suas operações precisam tratar a fadiga como um risco ocupacional passível de prevenção. 

Entre as principais medidas estão o rastreamento de distúrbios do sono, avaliações periódicas, encaminhamento para diagnóstico e tratamento, escalas mais adequadas ao relógio biológico, pausas planejadas e uma cultura organizacional que permita aos profissionais relatar fadiga sem receio de punições. 

"Quando a empresa enxerga a sonolência como um fator de risco gerenciável, ela protege o trabalhador, reduz acidentes, diminui custos assistenciais e contribui para uma mobilidade mais segura para toda a sociedade", conclui o especialista. 

Para o médico, investir em programas estruturados de gestão da fadiga é uma estratégia que beneficia trabalhadores, organizações e a segurança viária como um todo, tornando o cuidado com o sono uma medida essencial de saúde ocupacional e prevenção de acidentes. 

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