Por Rubens Fernandes*
Os dados mais recentes do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana (SIMOB), da ANTP, não deixam margem para leituras superficiais. O que está em curso nas cidades brasileiras não é uma retomada pós-pandemia, é uma mudança estrutural na forma como as pessoas se deslocam. No centro dessa transformação, está a perda consistente de protagonismo do transporte coletivo.
A queda de aproximadamente 35% nas viagens por transporte público em relação a 2019, combinada ao crescimento do transporte individual, revela uma inflexão clara: a mobilidade urbana no Brasil está se reorganizando em bases mais individualizadas, menos eficientes e mais desiguais.
A pandemia apenas acelerou tendências que já estavam em curso, como a digitalização das atividades, o trabalho híbrido e a busca por maior autonomia nos deslocamentos. O problema é que, sem uma resposta estruturada, essa transição tende a consolidar um modelo de mobilidade insustentável no médio e longo prazo.
Os dados de 2024 reforçam esse cenário. Ainda que haja uma leve recuperação no volume total de viagens, o transporte coletivo permanece estagnado, enquanto o transporte individual continua avançando. Na prática, isso significa que a retomada da mobilidade está sendo capturada por modos menos eficientes do ponto de vista energético, urbano e social.
A mudança na divisão modal é particularmente preocupante. Em poucos anos, o transporte coletivo perdeu cerca de um quarto da sua participação, deixando de ser o principal organizador da mobilidade urbana em muitas cidades brasileiras. Esse deslocamento de protagonismo tem impactos diretos na qualidade de vida da população, no uso do espaço urbano e nos custos sistêmicos da mobilidade.
Um sistema baseado majoritariamente no transporte individual é, por definição, mais caro, mais lento e mais intensivo em recursos. Os próprios dados do SIMOB evidenciam isso: o automóvel concentra parcela significativa do consumo energético, enquanto o transporte coletivo, mesmo com menor participação nas viagens, ainda absorve grande parte do tempo total gasto nos deslocamentos, um reflexo direto da perda de competitividade operacional.
Não se trata apenas de uma mudança de preferência do usuário, mas de uma deterioração das condições de oferta do transporte público. Quando o sistema perde eficiência, confiabilidade e atratividade, ele deixa de ser uma escolha viável, especialmente para quem tem alguma alternativa.
Outro fator que reforça essa dinâmica é o crescimento contínuo da frota de veículos no país. Com quase 49 milhões de unidades em circulação, o transporte individual volta a ocupar uma posição dominante não apenas em número de viagens, mas também na distância total percorrida. Isso amplia a pressão sobre a infraestrutura urbana, o consumo de energia e as emissões.
Ao mesmo tempo, o índice de mobilidade praticamente não cresce. Isso indica que não estamos apenas mudando a forma de nos deslocar, mas também reduzindo ou substituindo deslocamentos, muitas vezes por soluções digitais. O resultado é uma mobilidade mais fragmentada, menos previsível e mais desafiadora para o planejamento público.
Talvez o alerta mais crítico trazido pelos relatórios esteja na constatação de que ainda estamos planejando com base em padrões que já não existem. Modelos ancorados em dados de uma década atrás não conseguem capturar a complexidade do cenário atual. Isso aumenta o risco de decisões desalinhadas com a realidade e compromete a efetividade das políticas públicas.
Diante desse quadro, o desafio não é simplesmente recuperar a demanda perdida pelo transporte coletivo. É redefinir o seu papel dentro de um novo contexto de mobilidade. Isso passa por uma agenda que envolva revisão de modelos de financiamento, integração modal, priorização do transporte público no espaço viário e incorporação de tecnologia para melhorar a experiência do usuário.
O transporte coletivo continua sendo a única solução capaz de atender grandes volumes de deslocamento de forma eficiente, sustentável e socialmente inclusiva. Mas, para que cumpra esse papel, precisa ser reposicionado como prioridade nas políticas urbanas.
Ignorar os sinais que os dados já estão mostrando é correr o risco de consolidar um modelo de mobilidade incompatível com as necessidades das cidades brasileiras. O colapso pode ser silencioso, mas seus efeitos são concretos e cada vez mais visíveis no cotidiano da população.
Ainda há tempo de reverter essa trajetória. Mas isso exige decisão, coordenação e, sobretudo, reconhecimento de que o futuro da mobilidade passa, necessariamente, pela reconstrução do transporte coletivo como eixo estruturante das cidades.
*Rubens Fernandes é diretor de relações institucionais da Busvale