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Com mais de 80% do mercado, as "big three" dos caminhões estão atrasando a eletrificação do setor, aponta novo relatório
Com a eletrificação de pesados ganhando força no setor, montadoras tradicionais como Daimler Truck, Traton e Grupo Volvo podem perder espaço para novas fabricantes chinesas
Por Administrador
Publicado em 08/04/2026 12:12
Mercado
Reprodução

Um novo relatório da Idle Giants, iniciativa internacional para impulsionar a eletrificação de caminhões pesados, lançado no dia 07 de abril, baseia-se na análise de múltiplas fontes de dados do setor para apontar que as montadoras tradicionais correm o risco de serem ultrapassadas por novas concorrentes – especialmente chinesas – caso não consigam ampliar a produção de caminhões elétricos.

Os três maiores fabricantes de caminhões do mundo – Daimler Truck (Mercedes-Benz), Traton (Volkswagen Caminhões e Ônibus, Scania) e Grupo Volvo (Renault Trucks, Volvo Trucks) –, que detêm uma participação de mercado global superior a 80%, desempenham um papel significativo na aceleração da eletrificação desses veículos, mas precisam ampliar sua produção e oferecer preços competitivos para que essa transição realmente ocorra.

Ao mesmo tempo, concorrentes chineses estão aumentando rapidamente a produção e lançando caminhões elétricos acessíveis e econômicos no mercado, o que os coloca em uma posição privilegiada para capturar o crescimento. A SANY, por exemplo, entrou no mercado brasileiro no final de 2025 com caminhões com preços entre R$ 1,8 milhão e R$ 1,9 milhão. Modelos comparáveis de fabricantes tradicionais como a Scania custam em torno de R$ 2,5 milhões. Outras empresas também estão se expandindo, como a XCMG que lançou uma linha completa de caminhões elétricos. Esse movimento está alinhado com tendências regionais mais amplas: o mercado de ônibus elétricos da América Latina está crescendo rapidamente, mas permanece altamente concentrado, com a BYD liderando quase 44% da frota, seguida pela Foton e Yutong. No geral, as fabricantes chinesas respondem por aproximadamente 85% de todos os ônibus elétricos em operação na região.

Embora as montadoras europeias ofereçam veículos pesados elétricos em seus portfólios, o ritmo da eletrificação ainda é lento. Devido ao tamanho e à alta demanda energética desses veículos, a eletrificação nesse segmento historicamente avançou mais lentamente do que em outros, como veículos leves, com um atraso médio de 6 a 8 anos. Em contraste, as fabricantes chinesas já possuem produção em larga escala de veículos pesados elétricos em seu mercado interno e continuam a se expandir globalmente, evidenciando uma crescente disparidade na velocidade de adoção entre as duas regiões.

Segundo Clemente Gauer, membro da coalizão Gigantes Elétricos – iniciativa brasileira para avançar a eletrificação de caminhões pesados –, “alguns grandes fabricantes europeus ainda estão avançando muito lentamente na transição energética em países em desenvolvimento, mantendo o foco na produção de veículos pesados com motor de combustão interna. Ao mesmo tempo, ao adiarem a descarbonização, essas empresas correm o risco de perder participação de mercado para novas empresas, que já demonstram liderança na eletrificação do setor. Esse cenário ressalta a necessidade de uma mudança estratégica, focada na redução de preços para expandir o mercado, no aumento do investimento em veículos elétricos e no apoio a regulamentações capazes de viabilizar a transição em larga escala”.

Uma grande oportunidade para o Brasil 

O Brasil continua sendo uma grande oportunidade para o crescimento do setor de caminhões elétricos. Embora a adoção desses veículos ainda esteja em estágio inicial, a maioria das distâncias percorridas por eles ocorre em rotas de 100 a 600 km, distâncias que já estão dentro do alcance dos caminhões elétricos atualmente disponíveis.

Avanços concretos já são visíveis, demonstrando que essa transição está em curso. Um exemplo é o projeto e-Dutra, que prevê a criação de um corredor verde com pontos de recarga e a operação de 1.000 caminhões elétricos no trecho entre Rio de Janeiro e São Paulo até 2030.

Com isso, "a infraestrutura já está avançando e a tecnologia de caminhões elétricos já permite percorrer grandes distâncias, mas ainda falta um passo decisivo das próprias montadoras, que concentram a maior parte do mercado: ampliar a produção no Brasil. A escala é o fator determinante nessa transição, pois volumes maiores reduzem os custos por veículo e garantem vantagens competitivas difíceis de replicar. Ao desbloquear esse volume, os fabricantes podem viabilizar economias de escala e se posicionar para atender aos padrões de emissão", acrescenta Gauer.

Segundo dados disponíveis no estudo da Idle Giants, embora representem apenas 3% dos veículos nas estradas, os caminhões pesados são responsáveis por cerca de 30% das emissões de CO₂ do transporte rodoviário. Essas emissões devem gerar até US$ 1,4 trilhão em custos relacionados à saúde em todo o mundo – associados aos caminhões vendidos pelos quatro maiores fabricantes ao longo de um período de 10 anos.

Os caminhões elétricos, por outro lado, reduzem o impacto da poluição associada ao diesel, tanto para a sociedade quanto para o meio ambiente, além de oferecerem custos operacionais mais baixos e maior eficiência.

A proteção das empresas contra a volatilidade dos preços dos combustíveis é uma importante estratégia. Além disso, o segmento tem conquistado maior reconhecimento e interesse: dados do relatório apontam que, em 2024, as vendas globais de caminhões elétricos cresceram quase 80%. Somente no primeiro semestre de 2025, foram vendidos quase 90.000 veículos em todo o mundo – principalmente na China, o que reforça a liderança do país na transição e explica por que seus fabricantes estão se expandindo fortemente para os mercados globais.

 

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