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Vulnerabilidades e riscos IoT podem expor pedágio free flow no Brasil
Por Administrador
Publicado em 05/03/2026 12:09
Artigos
Reprodução

Por Eduardo Gomes*

Em novembro passado, a rodovia Presidente Dutra (BR-116/SP) tornou-se o primeiro trecho brasileiro a operar com cobrança proporcional por quilômetro rodado, marcando a consolidação do modelo de pedágio eletrônico sem cancela – o chamado free flow. A primeira experiência nacional foi implantada ainda em 2023, na BR-101/RJ (Rio-Santos).  
Amparado por regulamentações recentes, o modelo avança como uma solução para aumentar a fluidez do trânsito e tornar a cobrança mais justa. No entanto, essa modernização traz consigo novos riscos: por trás da comodidade de não parar em praças de pedágio, está uma complexa infraestrutura digital crítica, que depende de câmeras, sensores e redes conectadas e que já foi alvo de ciberataques em outros países.
Em 2017, na Austrália, 55 câmeras de trânsito foram infectadas pelo ransomware WannaCry, que criptografou os sistemas e desativou parte da operação. Dois anos depois, nos Estados Unidos, hackers invadiram uma empresa que operava tecnologia de pedágio e vazaram 105 mil imagens de placas e rostos de motoristas. No Brasil, criminosos vêm explorando dados reais de veículos e condutores obtidos de vazamentos externos para montar sites falsos que simulam a cobrança do pedágio free flow. Embora esses golpes não tenham comprometido diretamente os sistemas de pedágio, eles evidenciam como vulnerabilidades em ecossistemas adjacentes podem impactar operadoras e fornecedores e servir como vetor para fraudes associadas à nova operação.
A principal diferença entre o free flow e o pedágio tradicional está no seu grau de dependência tecnológica. A identificação e a cobrança dos veículos ocorrem exclusivamente por meios digitais o que significa que cada componente da cadeia passa a ser uma potencial superfície de ataque. Equipamentos de campo, sistemas de processamento e redes de comunicação precisam operar em total sintonia e segurança para garantir a continuidade do serviço e a integridade das cobranças.

IoT e OCR: os pontos mais expostos
As câmeras OCR (Reconhecimento Óptico de Caracteres) que leem as placas são um dos alicerces do sistema e também um alvo em potencial. Estudos recentes revelaram vulnerabilidades graves em câmeras de leitura automática de placas: um boletim da agência de segurança cibernética dos EUA (CISA) detalhou sete falhas em modelos populares de câmeras ALPR, incluindo ausência de criptografia de dados e credenciais de acesso expostas.  
Em um caso, descobriu-se que todas as câmeras de certa fabricante vinham com uma rede Wi-Fi ativada por padrão e senha igual e fixa em todos os aparelhos, permitindo que qualquer pessoa com acesso a essa senha pudesse se conectar ao dispositivo.  

Outro ponto crítico são as redes de comunicação que interligam todos os componentes do free flow. A troca de informações entre pórticos de cobrança, centrais regionais e sistemas de retaguarda ocorre em tempo real, geralmente sobre infraestruturas de fibra óptica, enlaces de rádio de longa distância ou redes móveis seguras.  
A resiliência dessas redes é, portanto, tão importante quanto sua segurança: deve-se prever redundância de rotas, failover de conexões e sistemas locais de armazenamento temporário (buffer) para reter dados de passagens caso haja perda momentânea de link.  

Dados pessoais sob vigilância
A segurança da informação no free flow não se limita à proteção operacional ou financeira: ela envolve também a privacidade dos motoristas. Cada passagem sob um pórtico gera registros com placa, data, hora, local e, frequentemente, imagens do veículo e do condutor. Com diversos pontos de leitura ao longo das rodovias, é possível mapear com precisão os deslocamentos de um veículo e, por consequência, traçar padrões de comportamento e rotina.
Esses dados, por sua natureza, são enquadrados como pessoais pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), o que impõe obrigações legais a concessionárias e órgãos públicos quanto ao seu tratamento. Como a coleta dessas informações ocorre de forma automática, sem ação direta do motorista, torna-se ainda mais importante adotar práticas como minimização de dados, criptografia, anonimização sempre que possível e políticas claras de retenção e descarte seguro das informações.

Segurança por design: da arquitetura à operação
Para enfrentar esses desafios, o ponto de partida deve ser a adoção de uma arquitetura de segurança por design. Ou seja: prever mecanismos de proteção desde a concepção do projeto, em vez de tentar adicioná-los depois de o sistema estar em operação. Isso inclui a adoção de boas práticas como modelagem de ameaças (threat modeling), selecionar plataformas com certificações reconhecidas, adotar criptografia de ponta a ponta para dados em trânsito e em repouso, e implementar controles de acesso fortes a todos os módulos tanto físicos quanto digitais.
No plano da aplicação, o desenvolvimento seguro é indispensável. Interfaces web e mobile que permitem aos usuários consultar extratos e efetuar pagamentos precisam estar protegidas contra ataques comuns como SQL injection, cross-site scripting (XSS) e falsificação de requisições (CSRF). Já no campo, é necessário aplicar hardening aos dispositivos: desativar serviços desnecessários, atualizar firmwares, usar autenticação multifator para acessos de manutenção e, quando viável, substituir senhas por certificados digitais.
Mesmo com esses cuidados, nenhuma defesa é absoluta. Por isso, o monitoramento contínuo de segurança, testes de penetração (pentests) e auditorias recorrentes devem ser práticas obrigatórias. Antes da inauguração de um novo sistema e de forma periódica, as concessionárias devem contratar especialistas para simular cenários de ataque tentando explorar falhas nas redes, comprometer sensores ou interceptar APIs de integração com sistemas externos.
Além disso, é fundamental a prática de auditorias técnicas independentes para avaliar não apenas as defesas tecnológicas, mas também as políticas de segurança da informação, o treinamento das equipes, e testes reais dos procedimentos em caso de incidente, conhecidos como Plano de Contingência de Negócios ou (PCN), além da contínua verificação de conformidade com marcos legais e regulatórios. A adoção de um Sistema de Gestão de Segurança da Informação certificado pela norma ISO 27001, por exemplo, vem se tornando um diferencial competitivo relevante para operadores de infraestrutura crítica.
Proteger o sistema contra ataques e falhas não é excesso de zelo, mas condição básica para seu sucesso a longo prazo. Afinal, a confiança do usuário e a sustentabilidade do modelo dependem de garantirmos que, por trás das convenientes passagens livres, existe uma fortaleza tecnológica preparada para resistir a ameaças digitais. Ao impulsionar a mobilidade, é preciso também impulsionar a cibersegurança duas faces indissociáveis de uma mesma moeda na era das rodovias inteligentes.

*Eduardo Gomes é Gerente de Cibersegurança na TÜV Rheinland

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