Por Gabriel Di Blasi e Paulo Armando Souza*
A corrida global pela liderança em veículos elétricos (VE) colocou as baterias no centro da inovação tecnológica e, cada vez mais, no centro de disputas de propriedade intelectual. O que antes era um domínio principalmente técnico evoluiu para um campo de batalha estratégico, com implicações diretas para as cadeias de abastecimento globais, a política industrial e o acesso ao mercado.
As tecnologias relacionadas com baterias, incluindo células, elétrodos, separadores, sistemas de gestão de baterias, arquitetura de embalagens e processos de fabrico, estão agora abrangidas por paisagens de patentes densas e sobrepostas em várias jurisdições. As tendências internacionais recentes de aplicação da lei mostram que as disputas de patentes neste campo já não se limitam apenas aos fabricantes, mas podem estender-se por toda a cadeia de valor, afetando integradores, montadores e participantes do mercado a jusante.
Uma lição clara emerge destes desenvolvimentos: as empresas que não avaliam o risco de patentes precocemente enfrentam uma exposição significativa, incluindo restrições de acesso ao mercado, custos de licenciamento não planeados, ações administrativas ou litígios que podem perturbar as estratégias de comercialização.
Na sequência da recente execução do pacote União Europeia-Mercosul — muitas vezes designado por Acordo de Parceria UE-Mercosul (APUE) ou Acordo de Associação UE-Mercosul — estruturado em torno do diálogo político, da cooperação e de um pilar comercial (ALE), os blocos estão a avançar para uma integração económica mais profunda, com compromissos de sustentabilidade e reduções tarifárias progressivas (incluindo termos baseados em quotas e tarifas em carne de vaca, aves, arroz, açúcar e etanol). Para além da agricultura, esta integração mais ampla é cada vez mais relevante para as agendas industriais estratégicas, incluindo as cadeias de abastecimento ligadas a minerais críticos e ao fabrico avançado. Neste contexto, a combinação de disponibilidade de recursos, potencial industrial, um mercado de consumo em expansão e um crescente interesse de investimento estrangeiro do Brasil reforça a sua crescente relevância estratégica no ecossistema de VE e baterias. O país combina disponibilidade de recursos, potencial industrial, um mercado de consumo em expansão e um crescente interesse de investimento estrangeiro.
Esta integração, no entanto, traz um desafio essencial: a inovação sem uma estratégia de PI estruturada amplifica significativamente o risco jurídico e económico.
À medida que o Brasil se torna mais profundamente integrado nas cadeias de valor globais de VE e baterias, as empresas que operam localmente, seja na produção, montagem, I&D ou fornecimento, estão cada vez mais expostas a patentes detidas por detentores de direitos estrangeiros.
Neste contexto, as análises de Liberdade de Operação (FTO) deixam de ser um exercício jurídico defensivo para se tornarem uma ferramenta de governação crítica para a inovação. Avaliar se um produto, processo ou tecnologia pode ser comercialmente implementado no Brasil sem infringir os direitos de terceiros é essencial para reduzir os riscos de litígios e perturbações do mercado, orientar as decisões de I&D e engenharia, apoiar negociações estratégicas de licenciamento e fornecer segurança jurídica para investimentos e parcerias industriais.
No setor de baterias de VE, a FTO deve estender-se para além do produto final e abranger toda a pilha tecnológica, desde os componentes principais até ao fabrico e à integração de sistemas.
Para além da mitigação de riscos, a propriedade intelectual desempenha um papel ativo como facilitador da inovação. As empresas que operam ou planeiam operar no Brasil devem abordar a PI como um ativo estratégico, estruturando carteiras que protejam os desenvolvimentos locais e as adaptações tecnológicas, fortaleçam as posições de negociação em colaborações transfronteiriças, apoiem o licenciamento, as joint ventures e a transferência de tecnologia, alinhem as estratégias de inovação, comercialização e expansão do mercado.
Uma carteira de PI brasileira bem concebida pode servir não só como proteção, mas também como uma alavanca para a competitividade global, reduzindo a dependência de tecnologias de terceiros.
A experiência internacional mostra que a propriedade intelectual evoluiu muito para além do seu papel defensivo tradicional. No setor de VE e baterias, a PI define cada vez mais quem pode inovar, fabricar, dimensionar e competir.
Para o Brasil, este é um momento decisivo. A expansão da mobilidade elétrica, combinada com o papel do país no fornecimento de minerais críticos, exige uma abordagem de PI madura, técnica e virada para o futuro.
As empresas brasileiras desempenham um papel fundamental neste panorama, apoiando as empresas na avaliação global do risco de patentes, nas análises de Liberdade de Operação e na estruturação preventiva de carteiras, ajudando a garantir que a inovação no Brasil seja segura e internacionalmente competitiva.
* Gabriel Di Blasi e Paulo Armando Souza são, respectivamente, sócio-fundador e advogado do Di Blasi, Parente & Associados